O texto é uma exortação (um alerta) direcionada aos cristãos modernos, utilizando a figura histórica dos fariseus como um "espelho negativo" para ilustrar o perigo da religiosidade vazia, do legalismo e da hipocrisia.
[...] Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus (Mateus 5:20).
Fariseu, palavra que quer dizer "separados", referia-se a um grupo religioso fanático, numeroso e influente. Acreditavam que somente eles, com seus rígidos costumes e tradições religiosas criados pelos anciãos, poderiam entrar no paraíso. Eram eles que divulgavam as tradições orais e os costumes observados com rigor; os da época de Jesus ensinavam ao povo costumes e rituais extrabíblicos.
O Senhor Jesus alertou os seus discípulos a ficarem longe do que Ele chamou de "fermento", que são as doutrinas heréticas dos fariseus e suas tradições e costumes, que não passam de mandamentos de homens. Os fariseus, por causa das tradições recebidas dos antigos, chegavam ao ponto de invalidar, em muitos casos, a Palavra de Deus. Reprovaram até mesmo Jesus por Ele não se enquadrar em seus rígidos padrões de conduta. Os fariseus eram pessoas avarentas, que amavam as riquezas e o ser vistos pelo povo; gostavam de aparentar humildade e santidade para serem elogiados pelas pessoas.
Os fariseus gostavam de ostentar seus filactérios: palavra advinda do grego que significa "meio de proteção" ou "amuleto". Os judeus religiosos chamavam-no de tephillim, que quer dizer "orações". Eles os traziam amarrados em suas testas, entre os olhos, ou no braço esquerdo na altura do coração, e nas soleiras e nos batentes das portas de suas casas, por causa de uma extrema interpretação da Torá (Deuteronômio 6:6-9).
Filactérios eram minúsculos pergaminhos onde escribas escreviam algumas passagens da Torá/Lei (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) com letras miúdas e em hebraico; usavam-nos o dia inteiro e nem mesmo os tiravam para dormir ou tomar banho. Os fariseus ostentavam seus filactérios, e Jesus condenou essa abusiva ostentação (Mateus 23:1-3). Jesus não usou esses filactérios, nem seus discípulos. Os fariseus também impediam o povo de ir até Jesus, e o Mestre os repreendeu por isso; não queriam entrar no Reino de Deus e nem deixavam o povo entrar (Mateus 23:13).
Jesus, no relato de Mateus, capítulo 23, faz uma severa crítica aos costumes dos fariseus e suas práticas religiosas: "Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus". Os fariseus ensinavam as leis ao povo, mas não as praticavam. Queriam que o povo observasse as tradições dos antigos e as leis de Moisés, atando fardos pesados e difíceis de suportar aos ombros do povo, porém eles mesmos não queriam carregar. Tudo quanto faziam, faziam a fim de que fossem vistos pelos homens. Traziam pendurados em suas testas, no meio de seus olhos, largos filactérios. Amavam os melhores lugares, os primeiros assentos nas ceias e nas sinagogas. Gostavam de ser saudados nas praças, queriam todas as atenções para si; queriam ser chamados de rabi (mestre). Porém, um só é o nosso Mestre, a saber, o Cristo. Os sacerdotes fariseus aproximavam-se dos infiéis a fim de convertê-los ao judaísmo e, depois, transformavam-nos em fariseus como eles (Mateus 23:15).
Mas quando é que o crente se torna um fariseu? Primeiro, vamos ver algumas das características dos fariseus:
a) Eram avarentos, amavam as riquezas;
b) Invalidavam a Palavra de Deus por causa de tradições e preceitos de homens;
c) Atavam fardos pesados aos outros, que nem eles mesmos queriam mover com a ponta dos seus dedos;
d) Eram presunçosos e hipócritas.
O crente se torna fariseu quando...
- Quando se torna fanático, impondo regras e preceitos de homens aos irmãos que nem ele mesmo consegue cumprir.
- Quando invalida os mandamentos de Deus por causa de tradições e costumes de homens.
- Quando se aproxima de alguém por interesse próprio e, com o "fermento", convence-o à sua causa.
- Quando se apega às coisas desta vida, deixando de buscar o Reino de Deus e a sua justiça para que, assim, as demais coisas vos sejam acrescentadas.
- Quando aborrece os irmãos a ponto de lhes lançar tropeços que os impedem de buscar a Cristo e permanecer no Reino de Deus.
- Quando não entra pela porta estreita e impede os demais irmãos de entrar.
- Quando passa a amar as riquezas mais do que a Deus e a Jesus Cristo.
- Quando passa a gostar de ser saudado nas ruas com o título eclesiástico que recebeu.
- Quando passa a ostentar roupas, sapatos, títulos, bens materiais, anéis de doutorado em teologia, viagens internacionais etc., e não mais as marcas de combate de um bom soldado de Cristo.
Esse texto é um chamado à autenticidade. Ele alerta que é possível estar dentro da igreja, usar a linguagem cristã e ocupar cargos de liderança, e ainda assim estar espiritualmente morto ou agindo contra o Reino de Deus, caso a motivação seja a vaidade, o poder ou o dinheiro, em vez do amor e da verdadeira justiça divina.
Anselmo Silva